domingo, 10 de março de 2024

Inauguração do Memorial Pe. Luigi Risso: Sempre haverá tempo para homenagens

Por. Achilles Ribeiro

Este aprazível encontro de amigos, em clima de alegria e emoções, que se retratam no semblante de cada um de nós, proclama uma justa comemoração. Ele encerra atividades iniciadas nesta manhã, em ato de louvor e agradecimento a Deus pelas realizações dos MSCJ em nossa cidade. 

Agora, o instante de patentear nosso eterno apreço, reconhecimento e sobretudo profundo agradecimento por especiais conquistas.                         

Diz-se que toda criação celebra a Deus que a fez. Ele se serviu de criaturas iluminadas e benfazejas, que aqui muito empreenderam e hoje protagonizam esta noite. 

Por certo é legítimo, e um dever cívico até, quando rememoramos, enaltecemos e agraciamos vidas valorizadas por serviços prestados à uma cidade, à pátria e à humanidade.

Nem sempre será fácil, ainda que o pareça, dizer do que muito já se disse dos nossos heróis, dos seus labores, quefazeres e sacrifícios, por estas terras.

 A altiloquência de muitos ilustres pinheirenses os têm colocado em eminentes planos, em cenários de destaque e até em altares especiais, para sobrelevar os feitos destes personagens que aprendemos a amar, e que, incorporaram suas vidas à história de nossa região.

Nossa então, bucólica cidade, passou a ser referência na região, e no Estado, por obras sócio-educativas, culturais e empreendimentos em favor da promoção humana, que aqui iam sendo instalados. Chegamos a status de centro difusor de educação e cultura, formador de profissionais que hoje ocupam espaços em diferentes ramos de atividade, em todos os cantos do mundo!

Dos relatos, sabemos todos, desse grupo embrionário, de intimoratos missionários que aportaram em nossa cidade, nos idos de 1946. Norteados por um diligente e perseverante apóstolo, Dom Afonso Maria Ungarelli, aqui fincaram âncora, à eles se juntando outros tantos heróis, em anos posteriores.

Hoje, quisera ao menos ser sóbrio, se acaso assim pudesse sê-lo, para juntar minha voz, ao coro de tantas que entoam bendizeres pelo que vimos, pelo que sabemos e sobremodo vivenciamos, ao longo destes anos.

É certo que se pode dizer e ouvir, vezes sem fim, aquelas mesmas coisas que a nossa admiração não se cansa. Quem sabe amar, mil vezes diz o seu amor, mas nunca bastantemente o terá dito; quem de verdade louva, tem a prece sempre nova e a vida inteira é uma oração. 

A grandeza dessa obra missionária supre a insuficiência do narrador: o mármore é o mármore, ainda que se lhe falte o artista, para da excelência da substância, desentranhar a maravilha da forma.

Certamente nenhum tipo de homenagem seria mais apropriada à evocação destes personagens, do que a construção de um Memorial. Um testemunho histórico. 

Enquanto instituição permanente que é, conserva e expõe coleções de objetos pessoais, de trabalhos, relíquias, obras ou reunião de escritos. 

Justo para não sofrerem o acaso de descaracterizarem-se nas origens, ou a agonia do esquecimento frequente, é que se propõe esta memória institucional, formal, como objeto fundamental desta obra. O memorial portanto, sacraliza memórias. A redundância se impõe!

Uma grande dívida nossa, hoje se torna menor, com a inauguração deste espaço. Um modesto, mas egrégio monumento. Erigido num oportuno ensejo, conforme decorrido algum tempo do condoído traspasse de um dos remanescentes, que aliás, dá nome a esta simbólica construção, o Pe. Luigi Risso. Decorrido também um tempo maior de outras tanto quanto significativas perdas, desde que este grupo de pioneiros ministros de Deus, aqui chegou.

Passou aquele tempo, e passa depressa. Assim é o tempo dos vivos. O dos mortos – o tempo da verdade – não passa, é o imóvel da eternidade, onde, para os que viveram bem, nunca se apagam as lâmpadas do culto, que vencem o esquecimento e tirando-os da sombra, os trazem ressoando até nós. ”A lembrança é a ressureição dos que se foram”.  

Assim, amigos, nossos homenageados, neste recinto representados de alguma forma, estão ressuscitados! Mas é preciso assinalar, referendar, hoje celebramos também, a vida do relíquo missionário, Pe. Nicolau Gizzi, que participa conosco desta manifestação de alegria.    

É fato. A honra, o tributo, o nosso preito de gratidão, que agora, se materializa, alude e remete à todos os religiosos da Congregação MSCJ que por aqui passaram, deixando chancelas em ações e trabalhos. 

Mas cada um de nós tem boas lembranças, recordações que o passar dos anos não apaga. Assim, peço a vênia devida, para externar algumas significativas reminiscências.

Rememoro, quando ainda muito jovem, a presença do Pe. Fernando Meloselli, em desobriga, num pedaço de chão, encravado no meio da chapada pinheirense, o povoado Buriti. Em uma capela que ele estimulou a construir, designada Nossa Senhora das Graças, celebrou a primeira missa daquele recanto. 

O vilarejo cresceu em torno desse relicário, que existe ainda, a hoje Igreja de Nossa Senhora das Graças. A tradição deste ritual de catequese da Igreja Católica, acontece alí a cada mês de novembro, no formato original. Até a ladainha é cantada num latim canhestro. 

Amigo da família e por sua orientação, anos mais tarde ingressamos, dois irmãos, no Patronato S. Tarcísio, em regime de internato e matriculados no Colégio Pinheirense, carro-chefe das obras dos MSCJ em Pinheiro. Vidas direcionadas para um porvir ditoso.

Lembro também, com grande estima e bem-querer, de uma criatura muito simples, recatada, pouco notabilizada, mas com um lastro de proficiente trabalho como educador. Não raro, severo nas atitudes. Um mestre de gerações. Deixou referências no Patronato São Tarcísio, como orientador de internos.  Professor desde os primórdios do CP, de disciplinas hoje extintas dos currículos oficiais: Trabalhos Manuais, Desenho, Canto Orfeônico e Teoria musical. Sempre e sempre referenciado. 

Não faz tempo, comprovei a importância do que nos fora transmitido por aquele comedido apóstolo leigo, nos seus anos de prática educativa, lendo o testemunho de um emérito educador baiano: “A educação, entendo como a arte de disciplinar, que desenvolvendo no jovem tendências e aptidões, corrige a têmpera, tonifica a vontade, ameniza o sentimento, aprimora o gosto, forma hábitos sadios e maneiras polidas; é a cultura integral e harmônica de todas as faculdades humanas’’. 

Já nos seus anos maduros, quando nos encontrava, era um transbordar de satisfação, esboçado num sorriso largo e franco. Como quem dissesse que valeu ser severo por vezes, no instante da formar e orientar jovens para a vida. Foi um grande amigo, até quando se despediu de nós todos. 

Hoje, quem de nós cruza a Rua Grande, vê no Colégio Pinheirense de um lado, e no antigo Patronato S. Tarcísio, do outro, a imagem personificada de Fr. José Prezziosa.  

Referências agora, para um clérigo e sóbrio professor, que se apresentava sempre, e em salas de aula, elegante e garbosamente trajado em suas brancas e transluzentes vestes sacerdotais. Polido no falar, de comunicação fácil e oração brilhante, foi professor de nossa Língua Mãe e de Princípios de Religião. Um estímulo permanente para seguirmos firme no propósito de levar adiante, nossa vislumbrada formação. Outro ídolo: Pe. Sandro Fedelle.

Imperioso falar de D. Afonso Maria Ungarelli, o maestro dessa Sinfônica. Grupo que harmonicamente envolveu-se por suas atividades múltiplas, na sociedade pinheirense, desbravando e apontando caminhos, formatando jovens para diversos ramos de atividades, na incansável faina da promoção humana. 

Não raro o víamos, inspecionando obras. Outras mais vezes, sempre alegre, esboçando um leve sorriso, pacientemente visitando as salas de aula, saudando professores e alunos, de diferentes turmas do C.P. Seus olhos miúdos, de um brilho permanente, transpareciam uma especial alegria, como quem alí passava em revista, a menina dos olhos dentre tantos trabalhos por aquele grupo implementados. 

Em seu labor pastoral, incansavelmente buscando recursos e instalando novos empreendimentos, expandia assim, sua grandiosa obra, até os últimos momentos de sua vida. Parecia não lhe pesarem os anos, ou os não levava em conta, talvez para melhor ater-se à máxima de Marquês de Vauvenargues: “Pour exécuter de grands choses, il faut vivre comme se on ne devait jamais mourir”.

Um espaço para o Pe. Risso - um dos mais jovens desse grupo de religiosos. Abeirou em nossa cidade, já nos anos 1960. Foi acolhido como à todos. Desportista e simpatizante de futebol, num instante inicial, quem sabe, buscando aproximação com a comunidade, até participou de torneios da Liga Pinheirense, pelo Renner FC.

Por seu dinamismo, espontaneidade, estilo marcante no falar, franqueza, retidão em suas atitudes e trabalho duro, granjeou simpatia em seu afã missionário. Também, algumas vezes viu-se desestimado, por atitudes mais incisivas, por certa aspereza ou austeridade em apreciações ou decisões.  Mas seguia na sua obra evangelizadora, operando em todos os campos das lides pastorais. 

Empreendeu a edificação de igrejas, colégios e creches nas cercanias da cidade, em povoados e outros municipios. Desbravador, construiu estradas vicinais, passarelas e pontes, unindo comunidades distantes à cidade. Mas centrando sua missão nesta Paróquia do Fomento. 

A convivência e o tempo lhe impuseram um postura mais sóbria, compassiva e indulgente, conquistando uma cidade inteira, terminando seus dias, amado por todos. 

Atuou também, como professor no CP, quando foi instituído o Curso Científico. Ante a carência de professores, não se contrapôs ao convite para ministrar aulas de Ciências Exatas. Fui seu aluno, nesse período. Aí pude perceber e certificar-me da capacidade, sapiência, versatilidade e dinamismo daquela criatura. Mais ainda passei a estimá-lo.

A partir de então, amalgamou-se uma amizade que durou até os seus últimos dias. Sempre que lhe visitava, como amigo e até no mister profissional, saia convicto que estava diante de um homem que dignificou e santificou sua vida, no ministério permanente do servir ao próximo. 

No ocaso do seu tempo, a alegria não lhe feneceu do rosto. Manteve-se como que incólume e resiliente ao sofrimento imposto por comorbidades que lhe consumiram os últimos dias. 

Entendi, que me tinha considerável benevolência, deveras bem maior do que pudera merecer. Eu, na pobreza do meu culto, não o esqueço, e sempre que lhe recordo a grande vida, é com emocionada saudade.

Uma palavra final à equipe que coordenou a construção desta obra grandiosa. Capitaneada por uma destemida e valorosa cidadã, Iranilde Soares Padre, sem a qual, creio, ainda estaria no projeto. Ela que conseguiu congregar em torno de si, os que ansiaram por esta concreta homenagem. Um grande e digno trabalho, Iranilde!

O agradecimento dos que de longe ou bem próximo, de algum modo contribuímos e acompanhamos o erigir deste marco histórico: um espaço para permanente homenagem, reflexão, oração e comprazer-se com Deus, como fazemos agora, por aqueles que viveram pela causa pinheirense.

Neste ambiente, quem for capaz de vislumbar o infinito, entenderá que tudo é esplendor de esperança, como a mostrar que a vida não acaba para quem souber viver belamente.

Obrigado.


Achilles Camara Ribeiro                                                                                                                                                                                                      Ex-Aluno do Colégio Pinheirense                                                                                                                                                    Pinheiro, 16.12.2023

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